domingo, 3 de abril de 2016

A Perda do EU (Para Sempre Alice - Resenha)

Aningas / Horizonte, 03/04/16 as 15:30 pm 

E se um dia tudo que você é fosse tirado de você? É com essa pergunta que começo a falar de um livro que se tornou o meu favorito, entre os dezesseis que já li esse ano.
“Para sempre Alice” romance de Lisa Genova, Autora e Neurocientista escreveu esse titulo em 2009, vale lembrar que é ficção. Somos conduzidos a uma viagem por dentro dos sintomas do Alzheimer. Genova é mais cientista do que autora e em algumas partes do livro utiliza termos técnicos, porém os personagens são minuciosamente desenhados e os diálogos ricos em detalhes que explicam esses termos.
Antes de falar sobre o livro quero dar um aviso: “Pessoas de mentes subjetivas ou com tendências hipocondríacas não devem ler essa obra, para o bem de sua sanidade mental”. Durante a leitura tive medo de estar sendo acometido por esse mal, quem não já abriu a geladeira e esqueceu o que estava procurando? Quem não já voltou do caminho para conferir se fechou a casa? Quem não já se pegou perguntando: Será que coloquei perfume ou será que escovei os dentes? Ou já esqueceu uma palavra no meio de uma frase? São circunstâncias isoladas, mas no caso da personagem principal o que a incomodou foi à continuidade desses pequenos esquecimentos.
 Prometo que vou tentar não dar espoiler! A epigrafe não poderia ser mais apropriado (quando não há mais certezas possíveis, só o amor sabe o que é verdade). O romance narra à história da Dra. Professora e Palestrante Alice Howland, profissional conceituada na sua área de estudo que inclusive publicou até livro e esse mesmo foi utilizado por muitas universidades. No auge da carreira e na melhor fase de sua vida pessoal, a personagem aos cinquenta anos é diagnosticada com Alzheimer precoce, uma doença rara que é transmitida geneticamente, drasticamente as chances de seus filhos também serem afetados é de cem por cento. Alice sente-se culpada e perde perdão aos filhos por essa herança ruim.
O livro é Marcado por uma carga dramática muito forte, não leia sem uma caixa de lenço por perto. Um dos diálogos que mais me marcaram é quando a personagem fala que: “eu preferia ter câncer ao invés de Alzheimer”. Para ela os portadores de câncer tem uma vida ativa e podem influenciar outras pessoas, enquanto os doentes de Alzheimer são considerados dementes e tem que se acostumar a perder. Cada dia, cada hora, cada minuto é marcado por uma perda, até que a pessoa é reduzida ao um vegetal sem vontades próprias, incapaz até de realizar necessidades fisiológicas.
Outro ponto importante, à autora alerta para o cuidado e o trato com pessoas em estado terminal. O amor e a atenção da família são de suma importância para qualquer tratamento. Os doentes não desejam serem tratados como coitados é necessário que o mínimo de independência seja mantido para que eles se sintam considerados dignamente humanos.
A história de Howland é marcada por um dilema: “Quem eu era, quem eu sou e o que eu não vou ser”. Aqui eu chamo a atenção para o descaso familiar. Os membros da família se perdem em meio à nova realidade e se esquecem de perguntar quais os desejos de Alice e chegam até negligenciar seu direito de opinar, quando John Howland é chamado para um trabalho em outro país trava-se um duelo entre eles. Em uma das suas falas o marido diz: “Que diferença faz. Ela estar aqui ou lá? Ela nem mesmo sabe quem é”...
O livro aborda mais uma lição de vida impactante. Quando Lydia a filha caçula abre mão de seus sonhos e sua vida para vim cuidar da mãe, mesmo ambas não tendo uma relação amistosa, diga-se de passagem. Correndo o risco de não ser mais reconhecida pela mãe à filha acredita que vale a pena pagar esse preço.
Como sempre acontece, o livro virou filme. Aconselho a ler antes de assistir. O livro é recheado de nuances e momentos que não caberiam na adaptação para o cinema. O melhor dessa versão é a forma como Julianne Moore interpreta Alice, seu Oscar foi merecido.
Acredito que até mesmo aqueles mais secos e frios, em algum momento durante a leitura do livro irão se emocionar. Genova está de parabéns por ter narrado sensivelmente o percurso do mal de Alzheimer e a perda do EU.
Boa leitura a todos.
Obs.: No site lelivros.website é possível baixar esse titulo entre outros;



  



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